A Teoria do Apego
- Lorena Bezerra

- 3 de jul. de 2019
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As crianças são consideradas apegadas quando tendem a buscar proximidade e contato com um cuidador específico em momentos de aflição, doença e cansaço por exemplo. O apego a um "cuidador protetor" ajuda as crianças pequenas a regularem suas emoções negativas em momentos de estresse e aflição e a explorar o ambiente, mesmo quando este contém estímulos que são amedrontadores.
O apego, que é um marco importante de desenvolvimento da vida da criança, continua a ser importante ao longo e toda a nossa vida. Na idade adulta as representações de apego moldam a forma como nós adultos nos sentimos em relação a tensões e estresses em nossas relações íntimas, entre as quais estão as relações pais-filhos, e a forma pela qual o eu (self) é percebido. Mas o que vem a ser esse apego e a Teoria do Apego!?! Pois bem, o inglês John Bowlby (1907-1990), psiquiatra especialista em psiquiatria infantil e psicanalista, em volto a realidade da segunda guerra mundial, período de 1940/1945, começou a publicar trabalhos sobre a criança, sua mãe e o ambiente. Trabalhos esses que vinham na contramão da visão dos teóricos de sua época, mas pertinentes à realidade da Europa naquele momento, onde haviam orfanatos abarrotados de órfãos da guerra e nenhum ideia de como seriam essas crianças e suas criações. As observações sobre o cuidado inadequado na primeira infância e o desconforto e a ansiedade de crianças pequenas relativos à separação dos cuidadores levaram Bowlby, a aprofundar seus estudos nos efeitos do cuidado materno sobre as crianças, em seus primeiros anos de vida. Bowlby sugeria que as crianças vinham ao mundo biologicamente programadas para formar vínculos com os demais, já que isso as ajudaria a sobreviver, assim como o medo de estranhos representaria um mecanismo de sobrevivência importante, incorporado pela natureza. De acordo com ele, os bebês nascem com a tendência de demonstrar certos comportamentos "instintivos" que ajudam a assegurar a proximidade e o contato com a mãe ou com uma figura de apego.
Para Bowlby havia três fases no desenvolvimento do apego do bebê: A 1º Fase seria a orientação e sinalização não focalizada. Bowlby acreditava que o bebê iniciava sua vida com um conjunto de padrões comportamentais inatos que o orientam na direção dos outros e sinalizam suas necessidades. São comportamentos emitidos, como chorar, fazer contato olho a olho, segurar, afagar, reagir aos esforços de cuidados entre outros. É nessa fase que se encontram suas raízes. O bebê está construindo expectativas, esquemas, a habilidade de discriminar a mãe e o pai das demais pessoas. As interações previsíveis e fáceis que reforçam o vínculo afetivo dos pais compõem a base para o surgimento do apego do bebê. A 2ª Fase o Foco em uma ou mais figuras: Por volta de três meses de idade, o bebê começa a direcionar de maneira um tanto mais ampla seus comportamentos de apego. Ele pode sorrir mais para as pessoas que costumam cuidá-lo, podendo não sorrir de imediato a um estranho. No entanto, apesar da mudança, o bebê ainda não possui um apego totalmente desenvolvido. Ainda existe uma quantidade de pessoas favorecidas pelos comportamentos promotores de proximidade do bebê, sendo que pessoa alguma, se tornou a base segura. Nessa fase, os bebês não evidenciam uma ansiedade especial por separar-se dos pais, e não temem os estranhos, segundo Bowlby. E por fim a 3ª Fase, a do Comportamento de base segura. Bowlby acreditava que o bebê formaria um apego genuíno por volta dos seis meses. Ao mesmo tempo, o modo dominante de comportamento de apego do bebê modifica-se. Os bebês de 6-7 meses começaram a conseguir movimentar-se de maneira mais livre, arrastando-se e engatinhando, eles são capazes de movimentar-se na direção dos cuidadores, bem como de instigá-los os cuidadores a vir até eles. Os bebês utilizam a “pessoa mais importante” como à base segura a partir do qual exploram o mundo em torno de si, um dos sinais-chave da existência de um apego. De acordo com Papalaia & Olds (2006), à medida que as crianças amadurecem fisicamente, cognitivamente e emocionalmente, são levadas a buscar sua independência das próprias pessoas às quais são apegadas. “Eu faço” é a palavra de ordem das crianças quando usam seus músculos e mente em desenvolvimento para fazer tudo sozinhas, não apenas caminhar, mas também se alimentar, se vestir, se proteger e expandir os limites de seu mundo. Os dois anos representam uma manifestação normal da necessidade de autonomia, os famosos e temidos "terrible two". As crianças precisam testar sua nova noção de que são indivíduos, de que tem certo controle sobre seu mundo e poderes novos e excitantes. Elas são levadas a experimentar suas próprias ideias, exercitar suas próprias preferências e tomar suas próprias decisões. Os pais e outros cuidadores que encaram as expressões de vontade própria das crianças como uma busca saudável e normal de independência e não como teimosias possam ajudá-las a adquirir autocontrole, contribuir para seu senso de competência, e evitar conflitos excessivos . Nesta idade as crianças desenvolvem autorregulação, ou controle de seu comportamento, para conformar-se com as expectativas externas. A autorregulação é a base da socialização, a internalização de padrões socialmente aprovados. A obediência comprometida às demandas do cuidador, primeiro passo no desenvolvimento da consciência, leva à internalização. Outro conceito fundamental da Teoria do Apego é o do comportamento de apego, que se refere a ações de uma pessoa para alcançar ou manter proximidade com outro indivíduo, claramente identificado e considerado como mais apto para lidar com o mundo. A função principal atribuída a esse comportamento é biológica e corresponde a uma necessidade de proteção e segurança. Ressalta-se que o comportamento de apego é instintivo, evolui ao longo do ciclo da vida, e não é herdado; o que se herda é o seu potencial ou o tipo de código genético que permite à espécie desenvolver melhores resultados adaptativos, caracterizando sua evolução e preservação. Evidências de que as crianças também se apegam a figuras abusivas sugerem que o sistema do comportamento de apego não é conduzido apenas por simples associações de prazer. Ou seja, as crianças desenvolvem o comportamento quando seus cuidadores respondem às suas necessidades fisiológicas, mas também quando não o fazem. Uma das principais críticas que esta teoria do apego recebeu está relacionada com a implicação direta que ela tem. Deveriam as Mães se dedicarem exclusivamente ao cuidado de seus filhos enquanto estes são pequenos? As mães que exercem os cuidados exclusivos representam uma porcentagem muito pequena da nossa sociedade. Em maior parte das famílias outras pessoas estão envolvidas no cuidado das crianças. Neste sentido, Van Ijzendoorn e Tavecchio dizem que uma rede estável de adultos pode proporcionar uma atenção adequada, e que essa atenção pode, inclusive, ter vantagens sobre um sistema no qual a mãe deve satisfazer todas as necessidades de uma criança. O importante é ressaltar que a teoria do apego de John Bowlby não defende a exclusividade da mãe na criação. Ela fala que é fundamental uma figura primária que ofereça o cuidado e as atenções necessárias na primeira infância, favorecendo a criação de um vínculo que ajudará o bebê a se desenvolver de forma plena. Avançado na Teoria do Apego observamos que há 4 tipo de apego: O Apego seguro, o evitativo, o ambivalente e por fim o desorganizado. O bebê que desenvolveu um apego seguro demonstra emoções positivas quando se reencontra com o cuidador, busca consolo quando sente medo e usa seu cuidador como uma base segura a partir da qual pode explorar o mundo. Esse tipo de apego é formado quando os cuidadores respondem às necessidades da criança de forma consistente. Vão em resposta ao seu chamado, acolhem suas falas, medos, choros. Quando o bebê desenvolve um apego evitativo, ele ignora ou evita o cuidador no momento do reencontro, e não demonstra preferências entre o cuidador ou um estranho. Isso acontece quando os cuidadores respondem às necessidades e aflições da criança com rejeição. O famoso "deixa chorar!", "Ele precisa aprender a dormir no berço", "Fizeram isso comigo e tô aqui vivinho", "Deixa ele(a) lá. Vai passar!" Quando o bebê desenvolve um apego ambivalente, ele fica nervoso quando está sozinho, suspeita de estranhos e não fica aliviado quando se reencontra com o cuidador. Isso acontece quando os cuidadores reagem de forma inconsistente e imprevisível não sabendo se devem ou se vão acolher agora, seja por duvida, cansaço, ou quaisquer outras questões. Quando o bebê desenvolve um apego desorganizado, há uma mistura entre comportamentos evitativos e ambivalentes, às vezes contraditórios (como se aproximar do cuidador, mas com o rosto virado). Esse tipo de apego está associado a maus-tratos como violência física e emocional. E aqui entra um grande sinal de alerta! As crianças que tem relações de violência física (tapas, palmadas, porrada) e violência emocional ("você não presta!", "você não faz nada certo", "você é igual seu pai(ou mãe)", "você não vai dar em nada na vida), são crianças que estão muito vulneráveis as violência sexual e relacionamentos abusivos, já que foi ensinado à elas que cuidado/amor esta relacionado à violência física ou emocional. Pois bem, em síntese a Teria do Apego nos trás a ideia de que para teremos um desenvolvimento socioafetivo saudável, precisamos não só de comida e abrigo, mas também de amor, cuidado e atenção, sendo os tipos de apego determinantes para a formação da personalidade adulta. Ela nos leva a refletir sobre o adulto que somos, a criação que queremos para nossas crianças e acima de tudo o adulto que queremos que eles sejam no mundo. Ainda existe muito medo e distorções sobre a prática da criação com apego, e que muitas pessoas pensam que isso pode estragar ou mimar a criança, mas os estudos atuais mostram evidências de que essa prática, se feita de forma consciente, é muito positiva. Não tenham medo de dar carinho, atenção, participação das brincadeiras, da vida, dar beijos e amor. Essas são atitudes fundamentais, e que podem fazer grande diferença no futuro das crianças! Fontes: Teoria do apego: bases conceituais e desenvolvimento dos modelos internos de funcionamento - Juliana Xavier Dalbem; Débora Dalbosco Dell'Aglio van Ijzendoorn MH. Apego nos primeiros anos de vida (0-5) e seu impacto no desenvolvimento das crianças. Em: Tremblay RE, Boivin M, Peters RDeV, eds. van IJzendoorn MH, ed. tema. Enciclopédia sobre o Desenvolvimento na Papalia, D. E., Olds, S. W., & Feldman, R. D. (2006). Desenvolvimento humano (8. ed., D. Bueno, Trad.). Porto Alegre, RS: Artmed Bowlby, J. (2004). Apego e perda. Perda: tristeza e depressão (Valtensir Dutra, Trad.). São Paulo: Martins Fontes. (Original publicado em 1985). Tavecchio, L. W. C., & Van IJzendoorn, M. H. (1987). Advances in psychology, No. 44. Attachment in social networks: Contributions to the Bowlby-Ainsworth attachment theory. Oxford, England: North-Holland. A Mente é Maravilhosa - https://amenteemaravilhosa.com.br/ Portal Educação. https://www.portaleducacao.com.br/ Primeira Infância [on-line]. http://www.enciclopedia-crianca.com/apego/segundo-especialistas/apego-nos-primeiros-anos-de-vida-0-5-e-seu-impacto-no-desenvolvimento. Publicado: Março 2005 (Inglês). Consultado: 30/06/2019. Site Juliana Goes - http://www.julianagoes.com.br/teoria-do-apego-o-que-e-e-como-se-relaciona-com-o-desenvolvimento-do-bebe/








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