Desabafo de uma professora nessa quarentena.
- Lorena Bezerra

- 25 de jun. de 2020
- 2 min de leitura

Oi, prazer você sabe quem eu sou? Não? Então eu vou lhe dizer: eu sou a professora do seu filho. Sim, sou eu que perco meus finais de semana, feriados e férias em prol do futuro do seu filho, mas antes de ser a professora dele eu também sou ser humano. E aposto que isso também não sabia, afinal se eu dou conta de 30 alunos de uma vez, no minimo estranha devo ser. Porém, não tenho nada de estranha. Na verdade, como disse anteriormente, sou um ser humano como você, com meus medos, dúvidas, angústias e receios e com uma família que precisa de mim, familia essa que muitas vezes fica de lado para amenizar o caos instaurado na sua. Mas, e quem é que cuida do caos instaurado na minha? A resposta correta: eu. Nossa, agora eu te choquei ainda mais né? Calma, não falei isso pra te chocar, mas te mostrar o quão sofrido é abandonar os meus para cuidar dos seus.
Lembro-me com lágrimas nos olhos de quanto aplausos médicos e enfermeiros receberam por estar salvando vidas nesta quarenta. E eu, eu que ensinei esses profissionais a ler e escrever, o que recebi em troca? Criticas e mais criticas por ter reduzido as horas das minhas aulas em um vídeo de 20 minutos. Ah, se você soubesse quanto tempo eu demoro para gravar esses 20 minutos de aula. Isso não vem ao caso, o que quero te dizer de coração é que meu trabalho aumentou muito neste período e as condições para tal diminuíram, além do meu salário é claro. E NINGUÉM me aplaude. Ninguém me dá os parabéns por tentar mudar a realidade de jovens e crianças, por deixar um pouco de esperança nesses dias tão difíceis.
Te peço desculpas se por ventura em alguma aula ao fundo você ouvir meu cachorro latindo, meu filho chorando ou ver uma fumacinha saindo da minha panela. Eu tento ao máximo que nada disso aconteça, mas situações familiares são imprevisíveis. Te confesso que é mais fácil eu ter controle de 30 alunos do que controlar a minha casa e, nesse ponto você entende, afinal deve estar passando pelas mesmas questões referentes ao seu trabalho.
Perdoe-me então, a minha cara de cansada, a minha voz rouca e baixa, a falta de piadinhas que por vezes me consagrou como a melhor professora da escola. Perdoe-me por não atender a suas expectativas como pai ou mãe. Peço perdão por não dar conta de tudo. Nessa fase da vida eu tenho que segurar o mundo com as mãos, pois eu sou mundo do seu filho. E o sorriso dele no final da aula, é melhor do que qualquer aplauso.
Por Luciana Lopes.








Comentários